Aracaju, SE 23/07/19
 

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Quem foi o Dr. Augusto César Leite?



 O Centro Acadêmico de Medicina da Universidade Federal de Sergipe - sob sigla CAMED, leva o nome do médico Augusto César Leite. Mas, afinal quem foi esse homem? O que ele fez de importante para a medicina e para Sergipe? Conheça neste tópico sobre o homem que deu nome ao CAMED - UFS.


Augusto César Leite nasceu em 1886 em Larangeiras, iniciou sua grande jornada após o curso secundário, embarcando no vapor Murupi em direção ao Rio de Janeiro em 1903, para fazer o curso de medicina, forma-se no dia 2 de janeiro de 1909. Nas férias que teve durante o curso, passava em Riachuelo, onde ajudava o irmão, Sílvio Leite, já médico, em pequenas operações. Em 3 de maio de 1909, acompanhado por amigos segue para Capela, onde desenvolvia suas atividades profissionais e se entregava de corpo e alma ao estudo da medicina, 3 meses depois seguiu para Maruim, onde ficou por 100 dias, até decidir, em novembro, fixar residência na capital sergipana. Naquele tempo, Aracaju era uma cidade sem calçamento e sem transportes, com uma população de 30.000 habitantes.


Não obstante as dificuldades, Dr. Augusto, de fraque, bengala e chapéu, percorria as ruas arenosas da cidade, atendendo chamado dos clientes. A clínica era feita através das mãos, dos olhos, ouvidos, fazendo uso também do olfato e até do gosto. Por diversas vezes, realizava intervenções até de grande porte, como mastectomias, na residência do próprio doente, em casebres de palha, à luz de querosene. O médico dispunha apenas de termômetro, estetoscópio mono-auricular e rudimentares instrumentos cirúrgicos e, na falta de laboratórios, fazia ele mesmo os exames de urina, sangue e fezes dos pacientes.


A convite do Dr. Simeão Sobral, ingressou em janeiro de 1913 no Hospital Santa Isabel (imagem a direita), primeiro e único hospital de Sergipe na época, com apenas duas enfermarias, sem raios X, laboratório, autoclave, com pouco instrumental cirúrgico, alguns vidros de ventosas e um termo-cautério. Envolto àquela época no mais completo caos, crianças e adultos misturavam-se, não importando as doenças que elas carregavam consigo. A única separação era pelo sexo. Iluminação adequada, higiene, nem pensar! Operava-se na própria sala de curativos, numa mesa de lastro de madeira, onde o médico, de paletó e gravata, sem luvas e sem máscara, ajudado por uma irmã de caridade e um auxiliar de enfermagem, só realizava pequenas intervenções cirurgicas e, de vez em quando, amputações. Segundo Dr. Augusto, era o que havia de mais moderno em Sergipe... Só para imaginar quão anti-higiênico era aquele nosocômio, o Dr. Pimentel Franco (chefe do Serviço de Mulheres) visitava a sua enfermaria acompanhado de um serviçal portando um fogareiro, o qual exalava incenso ou alcatrão, para afastar o terrível odor.


Viaja para a Europa em junho do mesmo ano, passando 6 meses na França, onde toma mais gosto pela Clínica Cirúrgica. Retorna a Sergipe com algum material cirúrgico, reiniciando o trabalho no mesmo Hospital Santa Isabel, onde criou o Serviço de Clínica Cirúrgica. Enfronhou-se na lide cirúrgica, aperfeiçoando-se em cadáveres e com as dores dos pacientes.

Em 9 de novembro de 1914 faz sua primeira laparotomia, o anestésico era o cloroformio e foi extraido, de forma total, um útero fibromatoso, com absoluto sucesso. Fato histórico para ao medicina sergipana. Realizou neste Hospital mais de 400 laparotomias.


Numa noite, durante um jantar com médicos em homenagem ao Dr. Paulo Parreiras Horta, estando presente o Governador do Estado, Maurício Graccho Cardoso, definiu-se pela construção do “meio cirúrgico”, tão almejado pelo nosso ilustre colega. Em 2 de maio de 1926 com apenas 6 médicos, construído pedra por pedra sob o olhar vigilante e atento do Dr. Augusto, foi inaugurado oficialmente o Hospital de Cirurgia, mais um fato histórico para a medicina sergipana.



Mesmo com a inauguração do Hospital de Cirurgia não deixou de operar no H. Santa Isabel, embora com dedicação maior ao primeiro, já que com a construção de um novo hospital em Aracaju, com capacidade para fazer cirurgias de alta complexidade para a época, houve diminuição do movimento operatório no H. Santa Isabel. Em virtude disso, a direção do mesmo, em reunião extraordinária do Conselho Administrativo em 1º de outubro de 1926 resolveu extinguir a “alta cirurgia”, como se denominava as cirurgias de grande porte de então, aumentando os leitos de clínica médica. Tomaram o máximo cuidado em comunicar tal medida ao Dr. Augusto Leite, em especial, devido aos relevantes serviços que prestara ao hospital, deixando claro que “o grande cirurgião” continuaria “a dispor incondicionalmente do referido Hospital”.


Tal fato desagradou profundamente o grande cirurgião, respondendo com uma carta em desagravo a tal medida, jurando que nunca mais poria os pés naquele Hospital. Isso mostra o orgulho e a forte personalidade do Dr. Augusto, que não admitia ser contestado. Já no Hospital Cirurgia, em 22 de março de 1927 realiza a primeira histerectomia total por via vaginal e em 5 de maio do mesmo ano a primeira mastectomia com limpeza dos gânglios axilares. Daí por diante, só conquistas: a Maternidade Francino Melo, onde em 13 de junho de 1931 nasce a primeira criança; serviços de radioterapia, radiologia, medicina e cirurgia experimental, Centro de Estudos, anátomo-patologia (aonde chegou a possuir mais de 2000 peças). Defensor intransigente da criança, instala em 24 de junho de 1933 o Instituto de Proteção e Assistência à infância de Sergipe. Também é de sua responsabilidade o Serviço de Assistência Obstétrica Domiciliar. E em 1950 a inauguração da Escola de Auxiliares de Enfermagem.


Alguns fatos marcaram a vida e obra do grande esculápio sergipano: em 1910 foi Diretor da Escola de Aprendizes e Artífices, tendo comandado os destinos da escola, durante 6 anos; lecionou também História Natural, no Seminário Diocesano. Em 1945, no Rio de Janeiro, foi o primeiro representante de Sergipe no Colégio Brasileiro de Cirurgiões. No seu discurso de posse, enfatizou o precário ambiente da Medicina em nosso Estado, dizendo que "para vencê-lo e transformá-lo à luz da ciência, era preciso estar compenetrado de profunda fé na cirurgia, cuja libertação e desenvolvimento não poderiam ser conquistados, senão bravamente, com muito trabalho, constância e esclarecida determinação".


Em 23 de janeiro de 1959 grandes comemorações marcaram a passagem do seu Jubileu de Ouro, com sessão solene no Instituto Histórico e Geográfico. Em sua fala de agradecimento, assim se expressou Dr. Augusto: - "Pôs-me nas mãos Walter Cardoso, um bisturí de ouro - um bisturí, o instrumento que Deus me confiou para servir, em Sergipe, ao homem e à humanidade. Dom José Távora, em nome da Santa Sé, entregou-me o amor à profissão; a Igreja premiou-me a Vida. Completaram-se. Não se pode amar a profissão sem amar a humanidade; não se pode amar a humanidade, sem dignificar a profissão. Que de mais consolador poderia eu aspirar, ao completar os meus 50 anos de formado? Tenho neste momento o céu e a terra".




Mais anos se passam e eis que surge Dr. Gileno Lima para quebrar o orgulho do mestre. Por dois anos, pacientemente, tenta convencer o amigo e admirador Dr. Augusto a retornar ao H. Santa Isabel. E consegue! No dia 9 de novembro de 1964 aos 78 anos de idade, trazido pelo diretor do H. Santa Isabel, o grande cirurgião refaz a mesma cirurgia que fizera há 50 anos, retirando um grande fibroma uterino com 78 anos, repete a mesma cirurgia 50 anos depois (Na imagem da direita, Augusto Leite está no alto e à esquerda). E vem o gesto nobre de reconhecimento e veneração: doa ao Hospital Santa Isabel o “Bisturi de Ouro” que havia recebido em 1959 da classe médica sergipana, em comemoração ao seu cinqüentenário de formatura. Gileno recebe o “bisturi” e o coloca num nicho em parede do referido Hospital. Nas futuras reformas do hospital, paredes foram derrubadas mas o bisturi foi guardado. Em 2007, em visita ao Hospital, membros da Academia Sergipana de Medicina descobriram o bisturi, cuidadosamente guardado por uma antiga funcionária do Hospital, dona Helena, numa gaveta de sua mesa de trabalho, envolto por um papel. Esse bisturi foi gentilmente doado pelo Hospital Santa Isabel à Academia Sergipana de Medicina, e encontra-se hoje no Museu Médico da Somese.


Em 09 de fevereiro de 1978, Dr. Augusto César Leite faleceu aos 91 anos em Aracaju, sendo sepultado no Cemitério Santa Isabel. Sergipe inteiro chorou a perda de um dos seus mais ilustres e queridos filhos. Enquanto vida e saúde teve, ia todos os dias ao Hospital, com seu corpo franzino e pequenino em altura, mas com uma alma gigantesca, a percorrer todas as dependências, olhando tudo e a todos, inquirindo e cobrando.


Em vida e saúde, ia todos os dias ao hospital, com seu com seu corpo franzino e pequenino em altura, mas com uma alma gigantesca, olhava tudo e a todos, inquirindo e cobrando. Augusto Leite plantou em nosso estado a semente do capítulo sergipano, ao estimular a prática da clínica cirúrgica, tendo realizado com êxito as primeiras grandes intervenções.


Fontes: Artigo Dr. Augusto Leite na medicina de Sergipe do Dicionário Bibliográfico dos Médicos de Sergipe: Séculos XIX e XX. / Antônio Samarone de Santana, Lúcio Antonio Prado Dias, Petrônio Andrade Dias - Aracaju: Academia Sergipana de Medicina, 2009.
Texto de Marcos Aurélio Prado Dias por ocasião da instalação da sala ''Dr. Augusto Leite'' na SOMESE, retirado do site da Sociedade Brasileira de História da Medicina.


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